um vício em futuros que nos cega ao presente
reflexões sobre a pressa de construir o futuro e como isso se reflete em produtos digitais, e por que devemos olhar mais para o que queremos hoje.
Há uma pressa que atravessa quase toda conversa sobre produto digital.
O projeto precisa nascer pronto para o futuro, de preferência revolucionário, escalável desde o primeiro dia e capaz de resolver uma dor que as pessoas ainda nem sentem, mas que (garante o argumento) vão sentir.
A promessa é sedutora, porque sugere que antecipar o amanhã é garantia de sucesso.
E essa pressa tem raiz.
Vivemos em tempos que parecem correr mais rápido a cada ano, que ferramentas novas surgem antes de aprendermos a usar as anteriores e cada lançamento já anuncia o próximo.
O sociólogo Hartmut Rosa chama esse fenômeno de aceleração social - a técnica, as transformações sociais e o ritmo de vida se acelerando juntos, um puxando o outro.
Nesse cenário, olhar para o presente parece quase um atraso, como se o hoje fosse apenas a sala de espera do que vem depois.
O efeito mais visível dessa lógica está no que ela tira de vista.
Passamos a desenhar soluções para problemas que ainda não existem, enquanto a dor que alguém sente, hoje, agora, segue esperando.
Mas, ok, toda inovação já carrega uma dose de aposta e olhar para a frente pode sim ter seus pontos positivos.
Porém, quando sua mira se vicia apenas no futuro, fica a dúvida de para quem de fato a aposta serve.
Se não estamos abertos a entender e acompanhar o problema em seu passo, ele que também terá mudanças, a solução é criada para um futuro nosso, não dele.
Há também um equívoco sobre o que significa mudar.
Costumamos imaginar a mudança como algo que acontece lá na frente, no horizonte que conseguimos projetar, quando ela está em curso o tempo todo e em tudo, inclusive no que temos diante dos olhos.
Associar inovação a futuro desloca o olhar para longe justamente do lugar onde as coisas estão se transformando.
Inovação é presente.
Se pensarmos assim, a dor de agora deixa de ser um ponto de partida modesto e passa a ser o dado mais confiável de que dispomos.
Ela tem endereço, porque existe alguém que a sente hoje e que pode dizer, com clareza, se a solução funcionou.
E a velocidade tecnológica tem o maior trunfo em mãos: conseguimos com grande velocidade criar uma solução para... hoje.
um caso: o match eleitoral
Vimos isso de perto na revisão de uma plataforma de match eleitoral, que ajuda o eleitor a encontrar candidatos com quem tem afinidade.
O projeto partia da premissa de que os eleitores queriam encontrar seu candidato a partir das próprias convicções.
Para realizar essa análise, no entanto, era preciso que todos os candidatos compartilhassem suas informações e posições, para então cruzá-las com as do eleitor.
Essas informações não estavam disponíveis, e a dor do projeto passou a ser outra (como coletar esses dados).
E a dor do eleitor, a que existia de fato, ficou para o futuro.
Essa dor ficou grande demais e difícil demais para ser atacada.
E o projeto acabou com dificuldades de realizar seu propósito inicial: apoiar o eleitor a encontrar um candidato.
Aqui, a Moldura reorientou o desenvolvimento: passamos a perguntar o que era possível construir com a informação disponível hoje.
Ajustamos a plataforma para conectar o eleitor a partir de dados objetivos que o TSE proporciona.
Criamos algo funcional para a dor real.
Construir produto digital diferente, nesse sentido, tem menos a ver com adivinhar o amanhã e mais com encontrar novas formas de lidar com os problemas de hoje.
Os de amanhã chegam no tempo deles, e um produto que aprendeu a escutar o presente costuma estar pronto para recebê-los.