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17 out 2026 · 8 páginas

um vício em futuros que nos cega ao presente

reflexões sobre a pressa de construir o futuro e como isso se reflete em produtos digitais, e por que devemos olhar mais para o que queremos hoje.

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Há uma pressa que atravessa quase toda conversa sobre produto digital.

O projeto precisa nascer pronto para o futuro, de preferência revolucionário, escalável desde o primeiro dia e capaz de resolver uma dor que as pessoas ainda nem sentem, mas que (garante o argumento) vão sentir.

A promessa é sedutora, porque sugere que antecipar o amanhã é garantia de sucesso.

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E essa pressa tem raiz.

Vivemos em tempos que parecem correr mais rápido a cada ano, que ferramentas novas surgem antes de aprendermos a usar as anteriores e cada lançamento já anuncia o próximo.

O sociólogo Hartmut Rosa chama esse fenômeno de aceleração social - a técnica, as transformações sociais e o ritmo de vida se acelerando juntos, um puxando o outro.

Nesse cenário, olhar para o presente parece quase um atraso, como se o hoje fosse apenas a sala de espera do que vem depois.

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O efeito mais visível dessa lógica está no que ela tira de vista.

Passamos a desenhar soluções para problemas que ainda não existem, enquanto a dor que alguém sente, hoje, agora, segue esperando.

Mas, ok, toda inovação já carrega uma dose de aposta e olhar para a frente pode sim ter seus pontos positivos.

Porém, quando sua mira se vicia apenas no futuro, fica a dúvida de para quem de fato a aposta serve.

Se não estamos abertos a entender e acompanhar o problema em seu passo, ele que também terá mudanças, a solução é criada para um futuro nosso, não dele.

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Há também um equívoco sobre o que significa mudar.

Costumamos imaginar a mudança como algo que acontece lá na frente, no horizonte que conseguimos projetar, quando ela está em curso o tempo todo e em tudo, inclusive no que temos diante dos olhos.

Associar inovação a futuro desloca o olhar para longe justamente do lugar onde as coisas estão se transformando.

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Inovação é presente.

Se pensarmos assim, a dor de agora deixa de ser um ponto de partida modesto e passa a ser o dado mais confiável de que dispomos.

Ela tem endereço, porque existe alguém que a sente hoje e que pode dizer, com clareza, se a solução funcionou.

E a velocidade tecnológica tem o maior trunfo em mãos: conseguimos com grande velocidade criar uma solução para... hoje.

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um caso: o match eleitoral

Vimos isso de perto na revisão de uma plataforma de match eleitoral, que ajuda o eleitor a encontrar candidatos com quem tem afinidade.

O projeto partia da premissa de que os eleitores queriam encontrar seu candidato a partir das próprias convicções.

Para realizar essa análise, no entanto, era preciso que todos os candidatos compartilhassem suas informações e posições, para então cruzá-las com as do eleitor.

Essas informações não estavam disponíveis, e a dor do projeto passou a ser outra (como coletar esses dados).

E a dor do eleitor, a que existia de fato, ficou para o futuro.

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Essa dor ficou grande demais e difícil demais para ser atacada.

E o projeto acabou com dificuldades de realizar seu propósito inicial: apoiar o eleitor a encontrar um candidato.

Aqui, a Moldura reorientou o desenvolvimento: passamos a perguntar o que era possível construir com a informação disponível hoje.

Ajustamos a plataforma para conectar o eleitor a partir de dados objetivos que o TSE proporciona.

Criamos algo funcional para a dor real.

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Construir produto digital diferente, nesse sentido, tem menos a ver com adivinhar o amanhã e mais com encontrar novas formas de lidar com os problemas de hoje.

Os de amanhã chegam no tempo deles, e um produto que aprendeu a escutar o presente costuma estar pronto para recebê-los.

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