esse negócio de tecnologia não é pra mim
pelo fim do entendimento de que tecnologia é coisa de “exatas”, e de como pesquisadoras, professores e quem vem das humanidades têm muito a contribuir (e ganhar) ao dominar essas ferramentas.
Quem não trabalha com tecnologia costuma olhar para as ferramentas digitais com receio.
A frase "tecnologia não é para mim" aparece com frequência, sobretudo nas áreas humanas e biológicas, e quase sempre encerra a conversa antes que ela comece.
O medo tem razão de existir. O digital é feito de dados, números e código, e durante muito tempo construir qualquer coisa nesse universo exigiu uma formação específica, quase sempre das áreas exatas.
A divisão entre exatas e humanas fez o resto.
Ela transformou campos vizinhos em territórios conflitantes, cada um olhando para o outro como algo complexo demais, reservado a quem tem a formação (ou o talento) certo.
Mas, felizmente, o cenário vem mudando. As novas ferramentas digitais e a inteligência artificial encurtaram a distância técnica que separava uma ideia da sua execução, e hoje é possível montar um site, organizar um acervo ou criar um aplicativo simples sem escrever uma linha de código.
Entender a tecnologia tem menos a ver com dominar a programação e mais com mexer nela. Clicar, testar, ver do que ela é capaz e onde ela falha.
E essa apropriação importa por um motivo que vai além da produtividade.
A distância convém a quem hoje concentra o domínio dessas novas tecnologias. Quanto menos gente de outras áreas compreende como essas ferramentas funcionam na prática, menos perguntas incômodas elas recebem.
E as perguntas que as humanidades sabem fazer (para quem, com que efeito, a serviço de quê) ficam de fora justamente de onde fariam mais diferença.
Há países apostando no caminho inverso.
Na China, o plano nacional "IA+", lançado pelo governo em 2025, tem como meta que o uso de aplicações de inteligência artificial chegue a mais de 70% da sociedade até 2027 e a mais de 90% até 2030.
É uma aposta de que uma população que usa e entende a tecnologia também tem mais condições de orientar o seu desenvolvimento.
As críticas à forma como a inteligência artificial vem sendo desenvolvida são muitas e necessárias. Há os modelos treinados sobre dados e trabalhos alheios, o custo ambiental de energia e água que sustenta esses sistemas, a falta de regulação diante de empresas que avançam mais rápido do que as leis.
Justamente por serem necessárias, essas críticas pedem mais do que distância. Elas pedem apropriação.
Apropriar-se, aqui, significa usar com responsabilidade e com olhar crítico. Pegar o melhor que essas ferramentas oferecem e trazer para o próprio trabalho, e pegar o pior para questionar, refutar e propor outros limites.
Os ganhos são concretos. A previsão da estrutura de proteínas por inteligência artificial rendeu o Nobel de Química de 2024 e mudou a pesquisa biológica, e nas humanidades a IA já ajuda a ler e transcrever acervos históricos que levariam anos para serem percorridos à mão.
Se queremos que essa tecnologia seja usada de outra forma, precisamos entender com o que estamos lidando.
um caso: o laboratório da UERJ
Vimos isso de perto com um laboratório de pesquisa em comunicação da UERJ, um grupo que trabalha com audiovisual e lida com tecnologia no dia a dia.
Criar o próprio site com apoio da IA nem estava no horizonte deles, porque a ferramenta parecia distante da área e cercada de ressalvas.
Junto com o grupo, montamos o site em menos de um mês, com todo o material organizado e com o cuidado de que o conhecimento sobre o projeto permanecesse com o próprio laboratório, expandindo seu alcance e promovendo um trabalho de qualidade.
Mexer na ferramenta, porém, é só uma parte.
Um bom produto digital depende também de método, a forma de pensar que vem do design e da engenharia (entender quem vai usar, o que se oferece a essa pessoa, em que ordem a informação chega até ela).
A IA deixou o instrumento ao alcance de todos, e o método continua sendo um conhecimento próprio, que se aprende fazendo junto.
Sobre isso, leia também "o que falta no app que você fez com IA", neste journal.
Esse negócio de tecnologia é, sim, para quem pesquisa, ensina e cria.
É para gente assim que queremos trabalhar. Pesquisadoras, professores, organizações e pessoas de outras áreas que têm uma ideia e querem pensar e fazer diferente, sem abrir mão do olhar crítico que trazem do próprio campo.
A moldura entra como companhia técnica nesse mergulho, para que você saia sabendo mexer no que construiu.
O medo pode até continuar por perto. Só não precisa mais encerrar a conversa.